• Camila Saraiva

Tristeza e depressão: o que faz um sentimento se transformar em uma psicopatologia?

Tristeza é sim um sintoma da depressão, mas estar triste não significa estar deprimido. Ela é um sentimento fundamental em nossas vidas e, até certo ponto, uma reação natural a acontecimentos difíceis, perdas, luto, términos etc. O que pode agravar um sentimento decorrente de experiências normais de vida, tornando-o um quadro mais grave, uma psicopatologia que demanda tratamento psicológico e psiquiátrico?


Um evento traumático que pode ser causador de um quadro depressivo não é traumático por essência, por si só. Duas pessoas diferentes, com histórias diferentes, que têm ou não rede de apoio, entre outros aspectos, irão muito provavelmente viver o mesmo tipo de experiência de formas diferentes. Isso se dá porque nossas estratégias de resiliência e de elaboração do evento tomam como base desde nossas experiências mais antigas, nossos primeiros contatos com o mundo. Ter confiança no mundo, nas relações e saber que temos uma base segura para onde retornar faz nossa exploração muito mais segura. Quando ainda na infância temos nossos sentimentos identificados, acolhidos e validados por nossos cuidadores, consequentemente aprendemos a lidar melhor com eles por toda a vida. Ou, em caso contrário, "uma pessoa pode tentar reprimir as emoções porque as encara como incompreensíveis, esmagadoras, intermináveis e até mesmo vergonhosas", de acordo com Robert Leahy, autor de obras da Terapia do Esquema.


Além disso, nossa leitura do evento ocorrido não o leva apenas como base para reagir a ele. Nossa interpretação do ocorrido e dos sentimentos envolvidos também é atravessada pela cultura. Em sociedades mais acolhedoras e colaborativas, onde as pessoas têm maior senso de comunidade e possuem ampla rede de apoio, o impacto da emoção negativa poderá ser menor. Sociedades mais individualistas que focam em performance e funcionalidade podem desmotivar pessoas em tristeza profunda, sobreviventes de um trauma e com sintomas depressivos a procurarem ajuda e compartilhar sua dor.


Se possuímos recursos para entender, acolher e regular nossas emoções, espaço para darmos voz à dor e rede de apoio para quem recorrer, o impacto do evento negativo pode ser bem menor e, talvez, não desenvolver uma psicopatologia. Em casos de pessoas com sintomas depressivos, a psicoterapia é uma ferramenta fundamental para lidar com a raiz da dor e do sofrimento, favorecendo um prognóstico favorável para o tratamento psiquiátrico que pode inclusive vir a estabilizar, diminuir ou, em casos de quadros que não sejam crônicos, até retirar a medicação de acordo com a melhora do cliente. Procure ajuda.